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Papel da liderança na gestão de crises

Papel da liderança na gestão de crises

16:30 | 21 maio 2020
 

Leopoldo Andretto Consultor empresarial e palestrante, é graduado (Administração) e pós-graduado (Gestão de Marketing) pela FGV-Fundação Getúlio Vargas (SP)

Papel da liderança na gestão de crises

Bem-vindo ao “novo normal”

Provocada pela pandemia, estamos presenciando a maior crise econômica mundial desde a Grande Depressão de 1.929, quando os ativos financeiros das empresas e pessoas praticamente derreteram.

Os analistas de plantão afirmam que o futuro “não será mais como antigamente” e estaremos assistindo ao que eles chamam de “novo normal”, algo que deverá suceder a 4a. revolução industrial.

E mais que nunca é tão oportuna a célebre frase de Jack Welch (ex-CEO da GE): “quando o ritmo de mudança de uma empresa for ultrapassado pelo ritmo de mudança fora dela, o fim está próximo”.

A crise, mais cedo ou mais tarde vai passar e ninguém (pessoas e empresas) será mais o mesmo depois dela.

Posicionamento do Líder

No atual cenário não existe solução pronta. Além do básico e imprescindível que é ficar de olho no fluxo de caixa e reduzir despesas, um importante fator para a empresa sair menos arranhada desse momento caótico e surreal, com muita pressão, medo, insegurança e stress, é a otimização da interação entre líderes, colaboradores, clientes, fornecedores e demais “stakehoders”.

Várias dicotomias (aparentemente antagônicas mas que podem coexistir dependendo do “timing” da empresa) se descortinarão na mente do Líder: digitalização x humanização, simplicidade x complexidade, inovação x conservadorismo e muitas outras.

Se Jim Collins (Stanford University) tivesse escrito hoje seu célebre bestseller (“Empresas Feitas para Vencer”, ed. HSM), certamente mudaria o título para “Empresas Feitas para Durar”.

Traduzindo, o ambiente atual exige dos Líderes pensamento estratégico com visão de longo prazo, o que não é muito comum na maioria do perfil dos gestores brasileiros, fato confirmado por pesquisa nacional da FGV Management junto aos seus ex-alunos de MBAs.

Pensamento Visionário e Estratégico

Essas são as duas principais habilidades necessárias do Líder para o enfrentamento da crise e do novo posicionamento após a mesma.

Grandes líderes visionários como Lincoln, Roosevelt, Churchill e Mandela não apenas reagiram fortemente às ameaças que confrontavam, mas também olharam para além do horizonte sombrio.

A crise não traz oportunidades e sim mudanças que permitem às organizações e pessoas criarem oportunidades.

Ou seja, devemos mudar o foco da rotina do” hoje” para “o que queremos ser amanhã”, sempre com o propósito de aumentar a competividade e a longevidade da empresa.

Estratégias Sugeridas para o Líder

1. a) Inteligência Emocional e “SWOT”: precedendo todas estratégias, o Equilíbrio Emocional é fundamental para o Líder “ler” bem o cenário atual e suas implicações atuais e futuras, com o objetivo de sair da crise com a empresa mais forte e mais resiliente que antes. A boa notícia é que a Inteligência Emocional pode ser desenvolvida ou melhorada. Essa leitura deve ser feita simultaneamente com a matriz “SWOT” (forças e fraquezas, oportunidades e ameaças) da empresa para melhor posicioná-la interna e externamente no novo ambiente de negócios.

1. b) Conexão: aumentar a conexão com os colaboradores procurando identificar suas reações, lembrando que “uma corrente é tão forte como seu elo mais fraco”. O feedback e o feedforward assumem papel importante nessa conexão.

1. c) Antenado: atenção total ao mundo dos negócios através do “benchmarking” (análise das melhores práticas de empresas bem sucedidas no ramo) e ao comportamento do consumidor, que está mudando exponencialmente, especialmente a geração “Millennials”, que deve ter atenção especial.

O compartilhamento de informações cresce exponencialmente e com ele o processo de desenvolvimento de mudanças e de inovações (regra de ouro das empresas do Vale do Silício, principal polo mundial de Inovação).

1. d) Orientação para pessoas: Ram Charam, um dos gurus mundiais preferidos dos empresários, afirma:” você sabe se um Líder é de fato orientado para pessoas olhando sua agenda e vendo quanto tempo ele investe em conversar com pessoas (liderados e clientes) e não apenas em processos e metas”

1. e) Visão de oportunidades: muitas empresas líderes nos seus segmentos praticamente sumiram porque seus líderes não entenderam a nova dinâmica dos negócios. Exemplos: Kodak, Nokia, Olivetti, Sears, dentre muitas que sofreram de “miopia de mercado” (T. Levitt). Ao passo que, em plena crise de 2.008, os fundadores da startups Uber e Airbnb perceberam a grande oportunidade de mercado que se descortinava com a utilização, a preços mais competitivos, da capacidade ociosa dos automóveis e das residências. Sem investimento em ativos tangíveis hoje possuem a maior frota de automóveis e a maior oferta de quartos do mundo (superando até a Mariott, maior rede mundial de hotéis, na qual investiu bilhões de dólares).

1. f) Criação de “Comitê de Crise”: fundamental, composto de colaboradores de vários perfis e hierarquia, devendo ser coordenado pessoalmente pelo Líder principal da empresa e reunido com intensa regularidade.

1. g) “Mentoring reverse”: os gestores mais velhos devem recorrer aos mais novos, especialmente os nativos digitais, para mergulharem de cabeça no mundo digital.

1. g) Energização e Comunicação: neste cenário de incertezas cabe ao Líder não apenas ter energia positiva como também transmiti-la intensamente aos seus liderados. A positividade do Líder deve ser maior que toda negatividade do cenário. A comunicação assertiva, ampla e transparente gera um ambiente de segurança junto aos colaboradores contribuindo para “elevar o moral do time”.

1. h) Celebração: muito comum no Brasil é o fato dos gestores preocuparem-se obsessivamente com a cobrança dos seus subordinados relegando a celebração para um plano secundário, esquecendo–se que uma das maiores expectativas dos colaboradores é o reconhecimento do seu desempenho, especialmente quando atingem objetivos e metas. Esta atitude forma times pró-ativos e motivados.

1. i) Trabalho remoto: opção que foi inevitável durante o crise, o “home office” veio para ficar devido aos seus inúmeros benefícios. Muitas empresas de vários setores da Economia afirmam que essa mudança provocada pelo isolamento vai se tornar prática permanente, já realizando estudos para reduzir substancialmente suas áreas de escritório físico, gerando importante economia e aumento de produtividade tanto para a empresa como para seus colaboradores. Mesmo antes da atual crise as empresas norte-americanas já se utilizavam em grande escala da prática do trabalho remoto.

1. j) Transformação Digital e Inovação: a crise atual é o empurrão definitivo para as empresas que ainda não se preocuparam com suas transformações digitais, optando pelos vários modelos existentes desde o e-commerce total até o “Omnichannel”, que é a fusão entre o formato digital e o físico. Certamente existem setores em que a “experiência de compra” possa ser a preferida pelo cliente, mas mesmo neste caso a experiência pode ser enriquecida com o reforço digital pré e pós-venda, contribuindo para maior fidelização do cliente. Empresas inovadoras que já atuavam fortemente no formato digital estão colhendo os frutos mesmo no atual cenário de recessão da Economia. Como é o caso da Amazon, que faturou no primeiro trimestre deste ano US$80 bilhões voltando a integrar o seleto grupo das empresas que valem mais de um trilhão de dólares, ao lado da Alphabet (grupo Google), Apple e Microsoft.

Jeff Bezzos, fundador da Amazon dá a receita para o sucesso da empresa e que serve como importante dica para os Líderes:

” Nós inovamos começando pelo cliente, trabalhando de trás para a frente. Essa é a pedra fundamental da empresa. Inovação não é sobre tecnologia, é sobre servir melhor. Tecnologia é o meio, não o fim”.

Desafio do Líder

O Líder tem o grande desafio de comandar a adaptação e transformação da empresa para que esta sobreviva e se diferencie no “novo normal”.

Com a certeza de que tudo vai passar e que o futuro do negócio que lidera vai depender da rapidez e lucidez de sua leitura das transformações ocorridas que vieram para ficar, e como inserir sua empresa com êxito nesse novo contexto.

Leopoldo Andretto

Consultor empresarial e palestrante, é graduado (Administração) e pós-graduado (Gestão de Marketing) pela FGV-Fundação Getúlio Vargas (SP) com cursos executivos nas áreas de Estratégia, Liderança, Marketing e Inovação na Universidade da Califórnia, campus de San Diego (16 Prêmios Nobel, 02 em Economia), onde atualmente é o único palestrante convidado brasileiro e coordenador de cursos de Estratégia e Liderança para empresários brasileiros.

Com trinta anos de experiência como executivo na indústria e no varejo, foi professor e coordenador de MBAs da FGV em São Paulo.

Postado em: 16:30 | 21 maio 2020
 
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